A pesquisa e a capacidade brasileira de gerar alimentos
Fonte: Alberto Duque Portugal - Diretor-Presidente da Embrapa - http://ambientes.ambientebrasil.com.bl
Mas que tipo de tecnologias ajudarão o agricultor a produzir mais e permitirão aumentar o acesso da sociedade a maior volume de alimentos e de melhor qualidade?
A ameaça de um desastre no abastecimento mundial de alimentos está afastada, pelo menos nesta mudança de século. Embora algumas regiões do planeta apresentem um quadro endêmico de fome, isto ocorre muito mais por problemas de distribuição de renda do que pela falta de alimentos. As diversas hipóteses de falta de alimentos provocadas pelo esgotamento dos recursos naturais, principalmente terra, e pelo crescimento populacional não se concretizaram pelo trabalho persistente na geração e adoção de tecnologias mais eficientes de produção, que permitiram multiplicar por algumas vezes a produtividade de grãos e frutas, e melhorar significativamente a taxa de conversão na produção de proteínas animais. Mesmo com o crescimento populacional projetado para as próximas décadas, as recentes descobertas científicas na área de biologia avançada permitem prever que a implementação de novas tecnologias possibilitará o aumento da oferta de alimentos, sua diversificação e redução de custos.
Mas que tipo de tecnologias ajudarão o agricultor a produzir mais e permitirão aumentar o acesso da sociedade a maior volume de alimentos e de melhor qualidade?
As tecnologias mais promissoras, capazes de modificar a natureza, estão relacionadas à biotecnologia, principalmente com a engenharia genética. Elas mudam as vantagens competitivas porque podem fazer com que uma determinada planta produza em uma área gelada ou em uma área seca como o Nordeste. Sua particularidade é a modificação de organismos vivos, plantas e animais, agregando características distintas das originais. São tecnologias que contribuem para o aumento da produtividade, redução de custos de produção e adequação de produtos às exigências dos consumidores e para a implantação de sistemas produtivos ambientalmente sustentáveis. Os ganhos a serem obtidos pela engenharia genética irão se concentrar no melhoramento genético de plantas e animais, nutrição e sanidade. Existem no mundo, atualmente, dezenas de variedades de alimentos transgênicos. As culturas mais contempladas são a soja, milho, algodão e canola. O Brasil já começa a realizar os primeiros experimentos nesta área, que promete grande contribuição na geração de alimentos.
Outro conjunto de tecnologias que prometem revolucionar a agricultura está relacionado à redução do risco, como perdas de recursos pelo uso inadequado de insumos e contaminação ambiental. Tecnologias acopladas à agricultura de precisão, por meio de sensoreamento remoto, permitem uma alocação ótima de insumos de acordo com as exigências das culturas e necessidades do solo. Máquinas sofisticadas podem reduzir as perdas nas colheitas para níveis insignificantes, poupando produtos anteriormente desperdiçados. Tecnologias de irrigação, com doses ótimas de água, eliminam o risco de perdas de safras, principalmente em regiões de clima seco, como é o nosso Nordeste.
O terceiro grupo de tecnologias promissoras está ligado à agregação de valor aos produtos agropecuários. São relacionadas com o processamento de alimentos, embalagem e qualidade. A própria biotecnologia moderna contribui por meio de novos processos agroindustriais, como produtos fermentados. A agregação de valor aos produtos primários aumenta a renda no campo, gera empregos e contribui para o desenvolvimento do interior do País.
O quarto grupo indica que o setor agropecuário será ainda favorecido com a aceleração do sistema de acesso e transmissão de informações. Tecnologias agropecuárias e informações de mercado começam a chegar em tempo real aos produtores rurais, permitindo racionalização nas culturas e criações, decisões rápidas quanto ao plantio de culturas e sua comercialização. A utilização da Internet, em poucos anos se tornará, nos mais remotos recantos do País uma ferramenta para obtenção de informações sobre pesquisas recentes ou orientações de técnicos. A fluidez das informações contribuirá para eliminar irracionalidade nos diferentes elos das cadeias produtivas, como intermediações desnecessárias; podendo trazer ganhos para os produtores, que passarão a comprar os insumos em melhores condições e a vender na hora certa a produção.
O Brasil têm recursos humanos capacitados para gerar as tecnologias que vão definir as vantagens competitivas da agricultura mundial. Também é capaz de competir em igualdade de condições com qualquer país, em qualquer área do negócio agrícola. Por isso, os investimentos em pesquisa precisam não apenas continuar, mas ser incrementados. Os países competidores no mercado de alimentos, ao mesmo tempo que cada vez mais investem em ciência, têm menor interesse em repassar tecnologias de ponta. O Brasil se credenciou como o País de maior competência na geração de tecnologia agropecuária para os trópicos e em praticamente todas as áreas vitais da produção agropecuária e florestal. Se isso faz com que o brasileiro fique tranqüilo quanto a nossa atual capacidade de gerar alimentos, deve também ser um estímulo ao incremento dos investimentos na busca de soluções para a alimentação de nossa população e de alternativas para ampliar as exportações.
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A Terra sujeito de dignidade e de direitos
Leonardo Boff *
Adital - Uma tema central da Cúpula dos Povos sobre as Mudanças Climática, reunida em Cochabamba de 19-23 de abril, convocada pelo Presidente da Bolívia Evo Morales é o da subjetividade da Terra, de sua dignidade e direitos. O tema é relativamente novo, pois dignidade e direitos eram reservados somente aos seres humanos, portadores de consciência e inteligência. Predomina ainda uma visão antropocêntrica como se nós exclusivamente fôssemos portadores de dignidade. Esquecemos que somos parte de um todo maior. Como dizem renomados cosmólogos, se o espírito está em nós é sinal que ele estava antes no universo do qual somos fruto e parte.
Há uma tradição da mais alta ancestralidade que sempre entendeu a Terra com a Grande Mãe que nos gera e que fornece tudo o que precisamos para viver. As ciências da Terra e da vida vieram, pela via científica, nos confirmaram esta visão. A Terra é um superorganismo vivo, Gaia, que se autorregula para ser sempre apta para manter a vida no planeta. A própria biosfera é um produto biológico, pois se origina da sinergia dos organismos vivos com todos os demais elementos da Terra e do cosmos. Criaram o habitat adequado para a vida, a biosfera. Portanto, não há apenas vida sobre a Terra. A Terra mesma é viva e como tal possui um valor intrínseco e deve ser respeitada e cuidada como todo ser vivo. Este é um dos títulos de sua dignidade e a base real de seu direito de existir e de ser respeitada como os demais seres.
Os astronautas nos deixaram este legado: vista de fora da Terra, Terra e Humanidade fundam uma única entidade; não podem ser separadas. A Terra é um momento da evolução do cosmos, a vida é um momento da evolução da Terra e a vida humana, um momento posterior da evolução da vida. Por isso, podemos com razão dizer: o ser humano é aquele momento em que a Terra começou a ter consciência, a sentir, a pensar e a amar. Somos a parte consciente e inteligente da Terra.
Se os seres humanos possuem dignidade e direitos, como é consenso dos povos, e se Terra e seres humanos constituem uma unidade indivisível, então podemos dizer que a Terra participa da dignidade e dos direitos dos seres humanos.
Por isso não pode sofrer sistemática agressão, exploração e depredação por um projeto de civilização que apenas a vê como algo sem inteligência e por isso a trata sem qualquer respeito, negando-lhe valor autônomo e intrínseco em função da acumulação de bens materiais. É uma ofensa à sua dignidade e uma violação de seus direitos de poder continuar inteira, limpa e com capacidade de reprodução e de regeneração. Por isso, está em discussão um projeto na ONU de um Tribunal da Terra que pune quem viola sua dignidade, desfloresta e contamina seus oceanos e destrói seus ecossistemas, vitais para a manutenção dos climas e da vida.
Por fim há um último argumento que se deriva de uma visão quântica da realidade. Esta constata, seguindo Einstein, Bohr e Heisenberg, que tudo, no fundo, é energia em distintos graus de densidade. A própria matéria é energia altamente interativa. A matéria, desde os hádrions e os topquarks, não possui apenas massa e energia. Todos os seres são portadores de informação. O jogo das relações de todos com todos, faz com que eles se modifiquem e guardem a informações desta relação. Cada ser se relaciona com os outros do seu jeito de tal forma que se pode falar que surge níveis de subjetividade e de história. A Terra na sua longa história de 4,3 bilhões de anos guarda esta memória ancestral de sua trajetória evolucionária. Ela tem subjetividade e história. Logicamente ela é diferente da subjetividade e da história humana. Mas a diferença não é de princípio (todos estão conectados) mas de grau (cada um à sua maneira).
Uma razão a mais para entender, com os dados da ciência cosmológica mais avança, que a Terra possui dignidade e por isso é portadora de direitos e de nossa parte de deveres de cuidá-la, amá-la e mantê-la saudável para continuar a nos gerar e nos oferecer os bens e serviços que nos presta.
Agora começa o tempo de uma biocivilização, na qual Terra e Humanidade, dignas e com direitos, reconhecem a recíproca pertença, a origem e o destino comuns.
* Teólogo, filósofo e escritor
Fonte: http://www.adital.org.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=47055